Artigos
1. Contatos de línguas em contextos migratórios: Sabine Gorovitz e Maria Carolina Calvo Capilla
As migrações se tornaram uma realidade estrutural, o que dá origem a fenômenos linguísticos cada vez mais diversificados, múltiplos e complexos, por suas origens e motivações, pelas trajetórias que se desenham de acordo com o perfil dos viajantes e também pela casualidade das circunstâncias. Nesse contexto, em que os falantes são levados a entrar em contato uns com os outros e com línguas que não são suas, encenam-se dinâmicas de re-contextualização cultural e geopolítica dos fatos e das relações, que resultam tanto dos contatos de línguas, como de culturas, padrões e recortes da realidade. O desafio é, antes de tudo, compreender como essas novas práticas se impõem na sociedade de acolhimento e, em contrapartida, quais influências os imigrantes sofrem, que os levam a modificar ou não essas práticas, principalmente em termos de repertório linguístico e de fenômenos complexos e variados de misturas linguísticas. A linha de contatos de línguas em contextos migratórios busca assim descrever esses fenômenos e suas modalidades, identificando as diversas formas de plurilinguismo que os movimentos migratórios provocam. Essa abordagem mais global dos contatos linguísticos em contextos migratórios se concretiza por meio de diferentes modelos teóricos e metodológicos, que tentam descrever o fenômeno levando em consideração as especificidades das situações de mobilidade que eles traduzem. A tônica recai sempre nos efeitos sociais dos contatos resultantes das mobilidades, que definem e que são definidos pelas práticas linguísticas e sociais, pelas representações e identidades, sempre em construção.
2. Multilinguismo e relações de poder na construção da igualdade de gênero — Susana Martinez Martinez
Em comunidades caracterizadas pela diglossia, há uma língua usada nas situações formais, no âmbito público, e uma ou mais línguas usadas nas situações informais, no âmbito privado. As teorias feministas têm mostrado como as mulheres são normalmente confinadas ao espaço privado. Assim, nessas comunidades, as mulheres ficam confinadas à língua vernacular pelo fato de estarem limitadas ao âmbito privado. Entretanto, os homens controlam ambas as línguas e interagem nos dois espaços.
3. O futuro presente de línguas e corpos em narrativas especulativas — Fernanda Alencar Pereira
Certas escritoras questionam as fronteiras dos corpos, da existência, das línguas, e propõem outros futuros. Assim, ao colocarem em questão os elementos da realidade que tomamos como imutáveis, suas narrativas, tornam-se fontes de pesquisa para a compreensão dos mecanismos sociais de opressão e das formas de resistência. O principal objetivo desta linha de pesquisa é analisar as diversas propostas de provocações linguísticas trazidas por textos de ficção especulativa de autoras contemporâneas.
4. Contatos de línguas na web — Maria del Carmen T. Aranda e Francisco Claudio Sampaio de Menezes
O contato entre línguas assumiu uma nova dimensão, a partir do surgimento da Internet e do uso do formato hipertexto em documentos digitais. Nesse contexto, a linha envolve questões relativas ao acesso a conteúdos digitais em português por estrangeiros, em suas múltiplas dimensões científicas: questões linguísticas, temas envolvendo multimodalidade, multilinguismo, inclusão digital e tecnologias linguísticas.
5. Terminologia da mobilidade — Elisa Duarte Teixeira
O projeto consiste em implementar soluções linguísticas para facilitar a participação social dos migrantes. Isso envolve a criação de materiais de consulta e referência diversos, além de aplicativos e ferramentas que possam auxiliar a interação linguística e cultural entre refugiados, intérpretes e demais pessoas e órgãos envolvidos. Um passo necessário para essa empreitada consiste no estudo e sistematização da terminologia multilíngue envolvida nessas situações de interação.
6. Intercompreensão — Claudine Franchon, Angela Maria Erazo Munoz, Valdilena Rammé, Lívia Miranda, Maria Rennally Soares da Silva
Em um cenário de educação plurilíngue e cidadã, é central (re)pensar as práticas comunicativas assim como de ensino-aprendizagem de línguas, privilegiando ações que favoreçam uma visão positiva e holística da diversidade linguística e cultural e de seu papel na construção de uma efetiva competência plurilingue e pluricultural. Neste sentido, este eixo concentra-se nos processos de mediação linguística e no pensar didático através das abordagens ditas plurais, notadamente a abordagem da Intercompreensão, que vem sendo objeto de diversas pesquisas e projetos em diferentes instituições brasileiras nos últimos 15 anos. Centrando-nos nas línguas românicas, investigamos o potencial da abordagem em diferentes vertentes: na formação de professores, no ensino-aprendizagem de línguas e culturas, na comunicação trans e intercultural e nas ações de acolhimento de migrantes.
7. Políticas e direitos linguísticos em contextos migratórios e acadêmicos — Sabine Gorovitz, Angela Maria Erazo Munoz, Rachael Radhay, Rozana Reigota Naves, Thiago Costa Chacon
Esse eixo reúne duas vertentes: por um lado, investiga as politicas linguísticas na construção do conhecimento científico e internacionalização das universidades brasileiras com base na integração regional latino-americana; por outro, foca nas políticas linguísticas para garantir o acesso aos direitos humanos de pessoas com pouca ou nenhuma proficiência em português que chegam ao Brasil, especialmente em sua relação com as instituições públicas. Na primeira vertente, parte-se do pressuposto de que a internacionalização das universidades latino-americanas vem reforçando a assimetria que contribui para a manutenção de uma ciência monolíngue, atualmente anglófona, quando poderia oportunizar a consolidação de um espaço acadêmico regional comum. Essa construção se dá a partir do reconhecimento de um espaço geográfico e econômico comum, mas sobretudo de um espaço social alicerçado em saberes científicos. Analisamos questões específicas, como a implementação de políticas linguísticas capazes de abrir espaço às línguas de veiculação do conhecimento global sem prejuízo dos idiomas locais. A segunda, foca a implementação de políticas linguísticas institucionais para garantir os direitos garantidos dos cidadãos estrangeiros. A ausência de políticas e mecanismos de inclusão linguística efetivos revelam como o Estado brasileiro não está conseguindo respaldar adequadamente suas instituições públicas na garantia dos direitos dessa população. Nesse contexto institucional, as pesquisas focam a participação linguística das comunidades linguísticas minorizadas. Para discutir esse tema, aborda-se por um lado a relação entre as práticas em meio à diversidade linguística e cultural, que simultaneamente consolida e ameaça a coesão social; por outro, a questão estruturante da gestão das línguas, seja por um mesmo indivíduo, inserido dentro de uma comunidade, de um país ou de um continente, seja por um grupo ou uma coletividade, por meio da implementação de políticas linguísticas, com seus múltiplos desdobramentos sociais. Trata-se, em suma, de discutir as relações que se estabelecem entre os falantes e as estratégias por eles desenvolvidas, frente às políticas, implícitas e explícitas, implementadas no enfrentamento e na gestão da presença dos imigrantes no país.
Todas as linhas se interconectam e dialogam, enriquecendo as discussões e promovendo uma abordagem transdisciplinar. As pesquisas entram no guarda-chuva da abordagem sociolinguística e dos contatos de línguas, ainda que hoje o foco maior recaia especificamente nas políticas e nos direitos linguísticos de comunidades minorizadas e nas políticas de tradução social e interpretação comunitária.